• Ana Castro

Roteiro

Atualizado: Ago 24


Quando Emília chegou em casa, largou o casaco no sofá e com medo de permitir que o desalento escorresse pelo seu rosto, correu para o quarto e ao trancar a porta, também se fechou. Sentia-se sufocada.

Escutando canções e encarando o nada, Emília passou o dia todo escondida. Naquele cômodo, nada indicava a permanência do sol ou sua partida, mas ela não se importava, só precisava ficar presa por algumas horas.

Os amigos não entendiam as mensagens visualizadas e não respondidas, já que ela sempre fora tão atenta. Os familiares não se importavam muito, pois Emília sempre gostou da solidão, talvez pensassem que estivesse feliz. Ninguém imaginava o que acontecia dentro do peito cansado de Emília.

- Tudo bem. - Ela tentava se confortar.

- Logo vai passar. - Uma voz amigável em sua mente buscou pronunciar.

Emília tinha em mente que talvez aquela dor nunca fosse passar, mas tinha lido em algum lugar - acho que em um livro de autoajuda - que nossos pensamentos transformam-se em realidade, então tentou pensar positivo. Respirou e falava sem parar:

- Tudo vai passar. Tudo vai passar. Tudo vai passar.

Deitada no chão do quarto, Emília não conseguia fechar os olhos e apagar um pouco a aflição que sua existência estava se tornando. Ela nunca soube lidar com a realidade, nunca compreendeu o que acontecia ao seu redor. Tinha medo de todos, do mundo e do que ele ainda poderia fazer com sua inocência e bondade.

O mundo sempre assustou Emília de uma maneira incontrolável, era ele sua maior prisão. As pessoas se tornavam atores a cada dia, tudo se transformava em uma cena. E ela sempre falava:

- Parece que todos despertam, olham um roteiro e passam o dia interpretando um personagem perfeito.

Ao fim daquela tarde, ela escutava risos do outro lado do quarto e uma voz, implorando sua desistência, mas Emília ainda tentava se confortar e ignorar as vozes macabras. Ela não compreendia a razão de se sentir tão perdida, como se não fizesse parte desse mundo, como se a Terra não fosse o seu lar. O peito dela era repleto de amor, mas sua mente era um inferno.

No outro dia, ela não tinha mais o que fazer, precisava encarar o mundo que tanto temia. Despertou-se, pegou seu casaco jogado no sofá, olhou seu roteiro e passou o dia interpretando um personagem perfeito.



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